O TESOURO

Ela então se viu cansada de ser troféu. A verdade é que ela sempre esteve muito atenta aos sinais que a vida dava, e não demorou muito pra ela perceber que o lugar dela não era na estante enfeitando a casa dos outros, ou tão pouco erguida pelas mãos de alguém para que pudesse ser vista. Ela se deu conta de que nunca precisou disso, pois ela tinha luz própria. Ela não era do tipo que se importava com a opinião dos outros, e não se sentia muito confortável em ter que pedir permissão para as coisas. Se fizesse bem, se colocasse um sorriso no rosto dela… Ela sabia que era a coisa certa a se fazer, e fazia. E era assim que ela regia a própria vida, com certezas, dúvidas, reflexões, muitas reflexões, mas nunca arrependimentos. Pra dar continuidade a história preciso fazer algumas observações.

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Pra ela, a felicidade sempre foi uma questão de escolha. “Tem gente que escolhe ser feliz, outros simplesmente não escolhem.” Por essa razão ela sabia que ninguém poderia ter o direito de ditar a felicidade dela, o que era certo, ou não, o que era bom, ou não. As escolhas, caminhos, desejos, sonhos, metas e sentimentos pertenciam a ela, e só. Essas eram coisas que apesar de amar compartilhar tinha medo de dividir. Mas é como dizem, nos momentos mais inesperados a vida nos traz surpresas maravilhosas. E pela primeira vez ela foi presenteada com um tesouro, cheio de lições, respostas para perguntas simples, coisas que ela nem imaginava que poderiam ser entregues a ela assim, de repente.

O fato é que esse tesouro estava numa caixa de madeira linda, fechado a sete chaves e por algum tempo ela não teve coragem de abrir. Foi todo um processo, de achar a chave certa, observar muito, admirar, ficar curiosa para saber o que havia ali dentro, se aproximar, se afastar, observar de novo, e finalmente destrancar. Mas aí veio a fase de só olhar pela fechadura. Até que um dia ela acordou determinada a descobrir aos poucos o que estava ali esperando por ela. Ela pensou: Vai que de repente é um mapa que vai me levar para outros lugares, ou uma chave de um lugar secreto. No final das contas era um livro, cheio de páginas em branco. Preciso deixar claro que ela achou aquilo genial. Na última pagina daquele livro enorme estava escrito: “Amar é saber somar, pra que não seja preciso dividir.” Naquele momento, tudo fez mais sentido. E ela que havia ido dormir criança, acordou mulher.

Empolgada e cheia de coragem, ela decidiu mostrar o tesouro pra outras pessoas, e para a surpresa dela ninguém entendeu o que havia de tão genial num livro em branco. Tentaram convence-la de que aquilo não era um tesouro, que ela estava enganada. E foi assim que ela percebeu que aquelas pessoas precisavam de ajuda. Ela não conseguia compreender como as pessoas não entendiam a importância daquele livro. O que poderia ser mais incrível do que escrever a própria historia, com as próprias regras, usando as palavras que a gente quiser? Ela pensou em mostrar a frase que estava no fundo do livro, mas logo em seguida desistiu, pois provavelmente as pessoas não estavam prontas pra entender aquilo também. Daí ela decidiu mostrar através de suas atitudes aquilo que havia aprendido.

Ela aprendeu que o amor transforma e liberta, não impõe nem aprisiona.

– Carol Alves